Portugal é um dos países mais centralizados da União Europeia – esta é uma das principais conclusões do estudo "Centralismo, Oportunidades e Mobilidade dos Jovens Portugueses Qualificados: perceções e realidades", do Centro de Estudos da Federação Académica do Porto, desenvolvido por investigadores da Faculdade de Economia da Universidade do Porto.
Os dados do inquérito são claros: os jovens identificam Portugal como um país asfixiado pelo centralismo, atribuindo-lhe uma pontuação de 4,11 em 5 no índice de perceção de centralização, num resultado transversal a género, idade, área de estudos e local de residência.
A centralização política e administrativa em Lisboa está a moldar negativamente e a limitar a geografia das oportunidades de estudo, trabalho e realização pessoal das novas gerações. Também a nível europeu, os indicadores são objetivos: Portugal é o 6.º país mais centralizado da União Europeia (UE), ocupando o 20.º lugar no peso da despesa local e regional no PIB – menos de metade da média europeia; e o 3.º país de UE onde a capital mais centraliza o mercado de trabalho face à segunda maior cidade – esta enorme diferença entre Lisboa e Porto só é superada pela Grécia e pela Hungria, dois casos descritos no estudo como exemplos de um modelo territorial que falhou.
O estudo expõe uma contradição: cerca de 80% dos jovens manifesta uma ligação forte ou muito forte ao território onde vive ou estuda, contudo apenas metade planeia permanecer na sua região de residência nos próximos cinco anos.
Existe um apoio quase consensual dos jovens ao aprofundamento da descentralização administrativa. Mais de 90% dos inquiridos defendem essa evolução, dos quais 65% consideram-na totalmente necessária. O estudo aponta que 60% dos jovens apoia a regionalização político-administrativa, e só 9% se opõe – referindo ainda que o grau de informação sobre a regionalização influencia significativamente as posições assumidas.
O verdadeiro teste da coesão territorial é, conclui-se, a capacidade de garantir o “direito a ficar”. Perante este diagnóstico, a FAP defende um conjunto de "Medidas para Combater o Centralismo": a concretização da regionalização, através da criação de regiões administrativas com autonomia e legitimidade democrática; a reforma da governação municipal, simplificando o modelo autárquico através da eleição apenas para a assembleia de freguesia e para a assembleia municipal – o presidente seria o candidato mais votado à assembleia municipal e formaria o executivo a partir dos eleitos municipais, garantindo maior estabilidade governativa, clarificação de responsabilidades políticas e reforço do papel fiscalizador das assembleias municipais; e a descentralização efetiva do Estado, com a instalação de serviços públicos, entidades reguladoras, centros de decisão e polos de inovação fora de Lisboa, capaz de criar oportunidades qualificadas em todo o território.
Outra das conclusões do estudo aponta que a Área Metropolitana do Porto (AMP) representa, talvez, a principal oportunidade para um maior desenvolvimento económico em Portugal, surgindo como uma solução intermédia. O centralismo faz Portugal mais pobre face à Europa e a concentração de recursos e competências em Lisboa não resultou numa trajetória de convergência bem-sucedida para o país. Pelo contrário: entre 2000 e 2023, Portugal perdeu posição relativa face à União Europeia e a própria Região de Lisboa evidenciou sinais de perda de dinamismo, com o seu nível de vida relativo a recuar de 167% para 158% da média nacional. Ou seja, o único motor do país está saturado, sobrecarregado por décadas de concentração excessiva de população, investimento e decisão.
A AMP concentra 17% da população nacional, possui base económica diversificada, universidades de referência e capacidade comprovada de atração de talento qualificado. O Norte ganhou produtividade apesar de perder população, o que prova que o problema não é falta de capacidade, mas a falta de massa crítica institucional, autonomia financeira e investimento público estruturante – consequências de um país excessivamente centralizado. Assim, apostar no desenvolvimento da AMP e de outras regiões intermédias não deve ser visto como uma política regional, mas sim como uma política nacional para o crescimento económico de Portugal.
“O problema da centralização não é apenas económico, mas também é democrático. É tempo de dizermos, sem receios, que precisamos de estruturas intermédias de poder. É preciso regionalizar Portugal. Uma descentralização efetiva que dê poder aos territórios. Mais centros de decisão fora de Lisboa e mais oportunidades de emprego qualificado em todas as regiões. Não podemos continuar a aceitar que o código postal dite o futuro dos jovens. Pelo bem de todo o território português, incluindo Lisboa”, conclui Francisco Porto Fernandes, presidente da FAP.
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No âmbito do estudo intitulado "Centralismo, Oportunidades e Mobilidade dos Jovens Portugueses Qualificados: perceções e realidades", realizou-se um inquérito que teve como objetivo analisar a perceção dos jovens qualificados sobre o grau de centralização existente em Portugal, avaliar o impacto das desigualdades territoriais no acesso a oportunidades pessoais e profissionais e compreender de que forma estas influenciam as intenções de mobilidade territorial. A amostra foi constituída por um total de 374 respostas válidas de estudantes inscritos em instituições de Ensino Superior da Academia do Porto, no ano letivo de 2025/2026, bem como recentes diplomados. Entre o total de inquiridos, 57% são do sexo feminino e 43% do sexo masculino. A margem de erro é de 5% para um nível de confiança de 95%.